Depois de mais de uma década envolta em disputas jurídicas e protótipos vazados, 1666: Amsterdam apareceu em forma de demo jogável. A experiência levantou tantas perguntas quanto as que tentou responder — e quem acompanha o projeto sabe que isso já era esperado.
De primatas a bruxas em Amsterdam
Antes de fazer o jogo dos seus sonhos, Désilets precisou construir um estúdio do zero. A Panache Digital nasceu com esse objetivo, mas a estreia da empresa foi com outro projeto: Ancestors: The Humankind Odyssey, um jogo desigual e inesquecível sobre evolução humana — da época dos primatas até os primeiros humanos, com saltos de milhões de anos entre cada fase. Não era o jogo mais acessível do mundo, mas provava que Désilets continuava pensando fora da caixa.
A crítica especializada classificou Ancestors como “ambicioso, desajeitado, pouco divertido — e às vezes silenciosamente instigante”. Essa descrição, curiosamente, também se aplica à demo de 1666. Durante todos esses anos, Désilets foi soltando migalhas sobre o projeto. Em 2016, chamou o jogo de uma experiência sobre ser “pior do que o diabo” e compartilhou uma gravação mostrando um corvo sobrando por um Amsterdam histórico, terminando com uma figura de roupa e chapéu pretos na proa de um barco num canal movimentado da cidade. Soava sombrio, satânico e, honestamente, delicioso.
“Um jogo sobre ser pior do que o diabo.”
Patrice Désilets, sobre 1666: Amsterdam em 2016
Em 2019, com Ancestors: The Humankind Odyssey já no mercado, Désilets confirmou que voltava a trabalhar em 1666. O mundo esperou. E esperou. A demo apresentada em junho de 2026 é o primeiro contato real do público com o que esse jogo se tornou depois de toda essa trajetória.
O que a demo mostra — e o que esconde
A apresentação é visualmente marcante: um Amsterdam do século XVII reconstruído com atenção aos detalhes, atmosfera densa e referências ao ocultismo espalhadas por cada canto do cenário. A Panache Digital claramente investiu tempo e pesquisa histórica na construção desse mundo. Mas a demo também frustra — revela poucos detalhes sobre como o jogo funciona no dia a dia. As mecânicas ainda estão envoltas em névoa, assim como a protagonista e seus poderes.
O que fica claro é o tom: 1666: Amsterdam não quer ser Assassin’s Creed com outro nome. Désilets está construindo algo próprio, com identidade visual e narrativa que se distancia dos padrões do gênero. Se vai funcionar na prática, só saberemos com uma build mais completa nas mãos.
Por que os fãs estão de olho nesse jogo
1666: Amsterdam não é só mais um action-adventure em cenário histórico. Ele representa a possibilidade de um desenvolvedor retomar o controle criativo de uma visão que foi arrancada dele pela lógica corporativa de uma grande publisher. É uma história que ressoa com qualquer gamer que já torceu por um dev talentoso sufocado pelo sistema.
- O projeto ficou engavetado na Ubisoft por mais de 13 anos antes de chegar até aqui
- Désilets fundou a Panache Digital especificamente para ter autonomia criativa total
- O estúdio já provou sua capacidade de pensar diferente com Ancestors: The Humankind Odyssey
- A ambientação em Amsterdam de 1666 explora um período histórico raramente retratado em games
- A temática de bruxaria e ocultismo distingue o projeto de qualquer outro action-adventure do mercado
Os fãs da série acompanham o projeto com uma mistura de expectativa e ceticismo saudável. Afinal, Ancestors também chegou com uma proposta ousada e dividiu opiniões — alguns amaram pelo ineditismo, outros odiaram pela falta de acessibilidade. Com 1666, os riscos são ainda maiores porque as expectativas estão nas alturas.
Disponibilidade e o que vem por aí
Por enquanto, o que existe é uma demo cheia de personalidade, mistério e promessas. Désilets passou mais de uma década lutando para fazer esse jogo existir — agora o desafio é fazer ele existir do jeito certo. Difícil não ficar animado, mas a demo levanta mais perguntas do que responde. E às vezes é exatamente isso que um projeto precisa fazer para prender a atenção do mundo.
Se tem uma coisa que a trajetória de Patrice Désilets ensinou, é que ele não faz concessões fáceis. Para o bem ou para o mal, 1666: Amsterdam vai ser exatamente o jogo que ele quer fazer — e isso, num mercado cheio de fórmulas repetidas, já é motivo suficiente para prestar atenção.